A casa dos Lowlands era grande e espaçosa, tinha um grande quintal com uma cerca alta em madeira escura. O chão era relvado, verde escuro, tinham ai uma árvore já morta mas optaram por conservar o tronco. A árvore dava um certo toque ao quintal, era também uma lembrança constante, nada é eterno. Killian tinha por hábito encostar-se a esta árvore, ficava encostado de cócoras a olhar para o chão. Fitava a relva e fazia todo o tipo de expressões, os pais observavam. "É o mundo dele Faye", dizia o pai pondo o braço por cima da sua esposa. "Mais sabes tu que não tem nada a ver com isso, quem te ouvir acha que não sabes nada sobre o teu filho", disse Faye debruçando-se sobre o alpendre e apoiando-se com os cotovelos. Quando Killian estava ao pé da árvore Freki ficava na sua casota, deitado observava em aparente ignorância. Havia um sentido de posse relativamente a esta árvore, era o lugar de Killian.
Quando não estava no quintal a exercer o seu domínio sobre Freki ou encostado à sua árvore, Killian ficava em casa. Os pais tinham decidido educá-lo em casa, claro que tinha as suas consultas regulares, era acompanhado por um grupo multi-disciplinar de médicos e terapeutas. Nunca faltou nada a Killian, e quando faltou Fenrir foi substituído por Freki, foi o único momento que fugiu à norma. Aos dez anos a vida de Killian mudou para sempre, certo dia ficara sozinho em casa com a sua mãe Faye. Freki estava no quintal a dormir, era um dia aparentemente normal. Killian gostava de correr no jardim à frente da sua casa, um terreno relvado até perder de vista. Era seu hobby correr, corria durante muito tempo. Não tinha uma hora especifica nem nada do género, corria como se precisasse de correr, com vontade de se mexer e voltava sempre no limite da exaustão. A sua mãe esperava-o sempre no degrau de acesso à porta de casa. Ficava a vigiar para o caso de ser preciso algo, ter um filho autista era uma preocupação constante, quase um emprego.
Nesse dia Killian fez algo que nunca tinha feito antes, a sua forma de correr estava mais agressiva, corria em fúria. Faye, habituada a vigiar o filho, sentiu que algo não estava bem e correu para Killian. Agarrou-o pelo pulso, " Ki, vamos para casa, por hoje já chega". Killian começou a sacudir-se para tentar fugir, foi ai que Faye o agarrou pela cintura para o carregar para casa. Killian esperneava e fazia uns sons animalescos, mas como sempre, não emitia uma palavra inteligível. Quando estavam a atravessar a estrada, ainda numa espécie de luta até casa, Killian deu um safanão a Faye. Podia ouvir-se Freki a ladrar no quintal do lado oposto da casa. Faye soltou Killian que correu de volta para a estrada mas escorregou na relva húmida e deu um tombo para a berma ficando de costas no chão. Um camião que passava travou de repente, o condutor tinha apitado umas quantas vezes mas Killian nem se apercebera. Faye correu imediatamente para o filho com o intuito de o agarrar. O camião carregava vigas em ferro, a súbita travagem e o safanão consequente haviam soltado uma dessas vigas.
Faye estava quase a chegar ao filho quando foi detida pela viga que rodopiava após embater no chão. O camião despistava-se a alguns metros destruindo alguns veículos pelo caminho. Killian assistia a tudo, ainda a tentar recuperar a respiração depois de cair de costas. Faye foi atingida mesmo em frente ao seu filho, a viga atingiu-a no peito e na cabeça numa pancada seca que pareceu ressoar no interior de Killian. Faye foi projectada contra o chão após o embate, rodopiou inanimada deixando uma rasto de sangue que lhe jorrava da cabeça. Killian olhava incrédulo, manchado pelo sangue da mãe que lhe escorria pela cara, até à boca, pelo pescoço, até ao chão. Freki ladrava incessantemente enquanto Killian cravava as mãos no chão com toda a sua força.
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