segunda-feira, agosto 2

Fragmentos - IV - Compasso

Dedos cravados no peito, respiração ofegante e o abdómen contraído, é o começo de um novo dia. Não é surpresa nenhuma acordar assim, mas é contra a natureza das coisas acordar num frenesim deste género. São precisos alguns momentos para se recompor. Há pouca luz no quarto, parece ser muito cedo. "Que horas são?" - deixa escapar enquanto se senta à ponta da cama. O chão do quarto está frio mas sabe bem nos pés. A ponta da cama está a cerca de um metro da parede, ao inclinar-se um pouco mais fica com a testa encostada  a olhar para o chão. Os sonhos recorrentes, as imagens, as experiências que vive quando fecha os olhos. "Um dia isto tem que acabar". A janela está aberta, lá fora ouve-se a noite, as árvores sussurram quando o vento lhes toca nas folhas.

São 6.30, hora de se levantar, fazer a barba e tomar banho. Agora em pé, em frente ao espelho como todas as manhãs, acha-se mais magro. Passa a mão na cara e esfrega os olhos, depois dos sonhos há sempre um momento de letargia, é o abrandar da mente, tudo fica mais lento. Vira as costas ao espelho, abre a porta e sai do quarto para entrar em seguida na casa de banho que fica mesmo em frente. Mais uma vez um espelho, barba por fazer, lavar os dentes, rotina diária. Tomar banho, vestir um fato, ajustar o nó da gravata e calçar aqueles sapatos que tanto odeia. Um momento em sentido em frente ao espelho e um sorriso hipócrita é tudo o que precisa para sair. Abandona o  quarto e passa pela sala, pega num pacote de bolachas e sai. A porta bate, a corrente do trinco arranha a madeira durante o embate, não está ninguém em casa.

São três andares de escadas até ao rés-do-chão, o elevador é algo que gosta de evitar. Certa noite ficou preso no elevador com uma senhora que não se calava, não tem muita paciência para a miséria alheia. A senhora do elevador já não vive lá, dizem que morreu durante a noite sentada em frente da televisão, foi encontrada alguns dias depois. Não vive ninguém nesse apartamento, o preço é baixo mas ninguém quer alugar. A fechadura da porta da rua está montada ao contrário, há que rodar a chave em sentido inverso para sair, em cinco anos ninguém se sentiu incomodado por este facto. Até é bom viver aqui, o prédio é moderno, não há confusão, as noites são silenciosas e "ninguém me incomoda". 

Agora é só descer a rua e comer as bolachas que podiam estar menos moles. São dez minutos a andar até ao metro, é uma estação nova e ainda não há sinais de vandalismo. Quando se entra sente-se um calor invulgar, é uma atmosfera artificial muito caracteristica. O metro tem um sistema de som que passa música constantemente, hoje podemos ouvir uma criança a cantar, notas de piano espaçadas caem no silêncio. "Devem ter-se enganado". 

Passar o cartão, descer as escadas e esperar que o metro chegue. É estranho não estar ninguém ali a esta hora, costuma ter algumas pessoas ainda que poucas. É melhor esperar sentado. "Preciso mesmo de comprar uns sapatos novos." Vem ai alguém que se aproxima a passos lentos, passos familiares, certos como o ponteiro dos segundos, há um compasso entre cada impacto que ecoa pelo túnel. Saltos altos, bem vestida, caminha segura de si. A senhora senta-se a seu lado, pousa a mala no colo.

"Deveria estar preocupada?" disse enquanto lhe dava um pequeno encontrão com o ombro. "Nem levantas a cabeça, e sabes que sou eu!"
"Bom dia Anna" com alguma vergonha à mistura. 
"Olha para ti, um homem feito, encontras-me aqui todos os dias e dizes sempre a mesma coisa" retorquiu cruzando os braços e ocultando um pequeno sorriso. 
"Sabes que não sou de grandes festas, esta rotina dá cabo de mim" disse enquanto fingia ver as horas no telemóvel do emprego. "Ando a dormir mal sabes?"
"Grande novidade que me contas, estás com péssimo aspecto", Anna levanta-se, "Vá, o metro está a chegar".
"Oh sim claro, mal posso esperar para chegar ao emprego" disse levantando-se e apanhando pelo canto do olho algo que o fez abrandar o movimento. "Um floco de neve no metro?" disse acompanhando o movimento do mesmo.
O floco serpenteou pelo ar até cair em cima da carruagem. Anna agarra-o pela mão, "Vá, não podemos perder o metro!"

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