Acorda de novo, o silêncio e a escuridão a que já está habituado preenchem o quarto. Desta vez é diferente, o coração não bate mais rápido, não existem suores frios, tudo está calmo. Está tudo estranhamente calmo.
Depois dos rituais matinais de higiene e preparação psicológica para o árduo dia, o homem traça o seu caminho para o trabalho. É o mesmo de todos os dias, mas hoje, ao entrar no túnel que o leva para o metro, é assombrado com imagens do sonho que teve. O túnel do metro transforma-se na caverna, e num abrir e fechar de olhos volta a ser o túnel. Passo a passo, caminha pelo elaborado labirinto que o leva até ao metro, passo a passo é invadido pelo sentimento de estar novamente na caverna.
Quando chega ao local de embarque olha em seu redor e não vê ninguém, apenas ratazanas que se banqueteiam com comida deixada por outros utentes. Eis que surge um vulto negro, as feições que sobressaem são as da mulher do sonho. Fecha os olhos, abana a cabeça e ao olhar para o sítio onde vira o vulto apenas encontra vazio. O metro chega a chiar, como se de um dragão voraz se tratasse. após o susto inicial o homem sorri e pensa para si mesmo, "estou mesmo a dar em maluco." Chega ao local de desembarque, toda a viagem foi calma e sem mais sobressaltos. Quando sai do túnel do metro vê uma multidão em círculo a olhar para o chão, a curiosidade é despertada e apressa-se ver o que se está a acontecer. Pelos comentários que ouve, uma criança foi atropelada, a mãe segura-a nos braços enquanto grita por ajuda. A correr por entre a multidão chega finalmente ao trágico cenário. O sangue pára nas suas veias e um frio mórbido instala-se no corpo, a criança moribunda que se contorce e bolsa sangue é a mesma do seu sonho. A mãe aponta o dedo para o homem enquanto lhe correm as lágrimas.
Tudo em volta rodopia, tudo em volta fica negro e silencioso. Fechar os olhos não é solução para acordar deste suposto sonho. Os olhos abrem-se e ao longe está a mesma mulher, a mesma de cabelos negros que se ri na sua direcção. O grito reaparece, e o homem entra em convulsões de agonia, cai no chão e todos parecem indiferentes ao que lhe está a acontecer. A mulher aproxima-se em passos lentos, umas vezes é visível, outras vezes apenas uma sombra. O homem começa a gritar, o seu grito e o grito da mulher são um só, não há espaço para mais nada, resta apenas ceder. As dores são insuportáveis, o sabor a sangue surge-lhe na boca e os olhos reviram-se, sem mais forças no corpo desmaia e a escuridão instala-se.
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