sexta-feira, agosto 6

Fragmentos - VII - Daystar

Volta a olhar para o tecto e deixa-se adormecer, as dores são a sua única companhia. Passados alguns minutos, em sono profundo, começa a sonhar. Há algo que não é normal, sabe que está a sonhar, está acordado dentro do seu sonho. Continua no hospital, mas está tudo vazio, no quarto apenas existe a cama onde está deitado. Destapa o lençol, tira a agulha do soro e  levanta-se ainda com algumas dores. Sai pela porta que dá acesso ao corredor.
O hospital tem um aspecto assustador, as lâmpadas estão a cair do tecto e apesar de muitas ainda permanecerem acesas há também as que estão a piscar. Só há uma certeza, é mesmo um sonho. Apesar do cenário horripilante como fundo, sente-se seguro neste hospital. Decide investigar o local, o corredor parece não ter fim, há algo que se move por entre todo aquele branco…um floco de neve negra oscila pelo ar. Um floco toca no chão, mais um, agora outro. Está a nevar dentro do edifício. O sonho que outrora lhe parecia seguro começa a deixá-lo preocupado. Ao fundo do corredor vê uma criança a correr e por instinto começa a persegui-la. Não a consegue alcançar, o rasto de pegadas na neve perseguem a criança até que esta chega a uma porta. A porta começa a abrir-se, gradualmente há uma luz branca que invade o corredor, a criança fica estática e aponta para o interior do quarto. "Para onde estás a apontar?", grita em plenos pulmões, "queres que entre?". "Da outra vez fizeste-me entrar na gruta, passei um inferno por tua causa". Subitamente, sem qualquer movimento voluntário está em frente da porta com a criança a seu lado. Ouve-se um estrondo, "um relâmpago?", um clarão invade o quarto. A luz torna-se mais intensa a cada segundo, intensa de mais para ser suportada.

“Acorde, porque está aqui? Este não é o seu quarto.” Diz uma enfermeira que o segura nos braços. “Eu…eu…não sei, o que se passou?” responde. “Não sei, o senhor veio para este quarto, não se lembra?”. Ainda meio atordoado lembra-se de ter andado, mas foi no sonho, será que é sonâmbulo? “Acho que sou sonâmbulo” diz ele com ar de espanto esboçando um sorriso sarcástico. “Pois, não sei nem me interessa. Tem que voltar para o seu quarto.” Diz a enfermeira enquanto o ajuda a levantar. Começam a andar no sentido da porta do quarto, "mas que quarto...", ainda não tinha acabado de dizer as palavras e já estava a perceber. Virou-se repentinamente para o paciente que estava na cama, era Anna, era mesmo ela! Assolado por um turbilhão de pensamentos aponta para Anna com a mão trémula, ”Diga-me, aquela rapariga que está na cama…o nome dela é...é Anna Daystar não é?!”. “Sim? A senhora Daystar foi internada na noite anterior ao dia em que o trouxeram a si.”. “Na noite anterior?” ripostou ele.”Sim, eu sou velha mas não sou caquéctica, sei bem o que digo.” Como é que isso seria possível? Na noite anterior ao dia em que ele fora levado para o hospital? Então quem era aquela “Anna” que o atacara no metro?

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