domingo, agosto 1

Fragmentos - II - Neve

Passo a passo entrou na caverna, a criança permaneceu no exterior. Já na escuridão olhou para trás, conseguia ver apenas a luz que a criança emanava, tudo o resto era completa escuridão. Abriu os braços e com as mãos tocou nas paredes de cada lado, achou mais seguro, que não se iria perder. Tocar nas paredes, sentir a textura e os sulcos, e andar. Andar sempre em frente, seguir a indicação da criança. Quem era a criança?

Agora com passos mais pequenos, com receio de embater contra alguma coisa, contra alguém. Não era possivel estar ali alguém, ao fim de tanto tempo, ou seria pouco tempo? Não havia qualquer noção temporal, nenhum som, apenas o escuro e as paredes rugosas.

Eis que em desespero surge uma luz, passo a passo uma luz cada vez maior. Está a nevar lá fora, os flocos deambulam lentamente até tocarem no chão. A saida da gruta culmina numa clareira fortemente iluminada pelo luar, intenso e quase hostil. Saiu da gruta e por instinto abrandou o passo, cerrou os olhos para ver melhor no meio de tanta luz. Passaram uns segundos até que conseguisse compreender o espaço onde se encontrava. Os flocos de neve eram negros, oscilavam no ar até cairem no chão, acumulavam-se num manto escuro que se mexia muito lentamente.

No centro da clareira está uma mulher de vestes negras. Inerte, não há um rosto que se consiga discernir. Os galhos das árvores cortam o luar num emaranhado que se estende sem limites, neste local só existe a clareira e a mulher. A neve continua a cair, é preciso avançar e falar com esta mulher, será a mãe da criança?

Conforme avança a luz é menos intensa, esta mulher está nua, os seus longos cabelos pretos que tocam no chão causam a ilusão de estar vestida. Está a chorar, há um movimento recorrente de sufoco, de vómito, de agonia. Tem uma das mãos na garganta e a outra a tapar a boca numa convulsão frenética, as unhas arranham a cara e o pescoço. As feições contorcem-se, mudam, espasmam. Há um olho que se abre, agora o outro, os movimentos param. Há um momento de serenidade, as feições de agonia dão lugar a um rosto sereno e sorridente.

A mulher está agora a uns meros centimetros do guerreiro que não tem qualquer reacção, nenhuma palavra é proferida, não há um movimento. A neve continua a cair, o luar passa por entre os galhos e num espasmo tudo se altera. A neve negra movimenta-se em remoinho e no centro está a mulher, o guerreiro dá dois passos a trás mas é agarrado por duas mãos trémulas, está agora cara a cara com esta mulher que já não se ri. A neve sobe-lhe pelas pernas sob forma de liquido negro e dissipa-se em cada poro. As feições mudam, os olhos abrem-se ao ponto de não conseguirem mais. Estão os dois cara a cara, a mulher abre a boca ao ponto de se ouvir um estalo no maxilar. A neve que permanece pulveriza-se numa explosão de particulas negras e a mulher começa a gritar. Estão cara a cara, não há escapatória, o som é ensurdecedor, a agonia é absoluta. Tudo em redor se revolve, há cada vez menos luz e o grito não tem fim.

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