"Hello Bugsy?" disse Anna fazendo uma cara pateta. "Sim, sei que gostas de olhar para mim mas já me começas a assustar!"
"Não me estou a sentir nada bem Anna, tenho dormido mal, tenho tido uns sonhos que não me deixam dormir. Ainda agora acho que vi qualquer coisa ao fundo do túnel do metro", disse deixando escapar o fôlego. Aparentemente não havia nenhuma razão para estar agitado, a próxima paragem já não estava longe. Alguns passageiros olhavam pelo canto do olho com cara de desconfiança."Não estou a perceber Bugsy, oh desculpa estar a atormentar-te. Acho que precisas de falar com um médico, falar com alguém que perceba o que dizes. Já pensaste ao menos em tirar uns dias de férias?"
Encostou-se ao banco ainda em sobressalto, "tens razão, vou pedir uns dias". Pendeu um pouco para o lado de Anna e disse em tom de suspiro, "Não te preocupes."
"Próxima estação..."
O metro abrandou, todos os passageiros se levantaram. Lentamente, ao acaso, foram chegando perto das portas. Levantaram-se os dois também, trabalhavam na mesma zona, ele no banco da rua 13 e ela na Centaur South. Uma livraria antiga mas bem conservada na rua 15, frequentada por clientes de elite dispostos a gastar grandes somas em livros raros. "Vá, recompõe-te, não vais entrar no banco com essa cara!", disse dando -lhe um pequeno encontrão que coincidiu com o parar do da carruagem. "Tens razão Anna", respondeu olhando para ela e fixando os olhos. "Tens a maquilhagem toda borrada, tu é que não podes ir trabalhar com essa cara".
Ana abriu a mala, "tens razão". As portas do metro começaram a abrir lentamente, os passageiros preparavam-se para sair. Num movimento brusco Anna tirou da mala o que à primeira vista parecia uma faca de cozinha. "Anna mas que..." Em três safanões violentos desferiu três facadas nas costelas do seu amigo de infância que arregalava os olhos em puro terror. Um corpo caia inanimado dentro do metro, os passageiros saiam um a um após o abrir das portas.Total indiferença, apáticos, fantasmagóricos.
Anna saiu do metro, a faca ensanguentada na sua mão direita. Dos seus olhos precipitavam-se lágrimas escuras que lhe corriam pela face. As portas do metro fechavam-se, Anna abanava a mão esquerda fazendo adeus ao corpo. Um sorriso inocente na sua cara de criança, deu meia volta e passo ante passo caminhou para as escadas do metro. As portas da carruagem já estavam fechadas e o metro em movimento. A bordo apenas um corpo que pouco a pouco via a sua vida a escoar pelo chão da carruagem. Pequenas gotas vermelhas marcavam o percuso de Anna.
"Próxima estação..."
"Quero abrir os olhos mas a luz é tão intensa", pensava enquanto tentava perceber onde estava. Finalmente, ao fim de uns segundos de esforço, conseguia ver e discernir. "Não conheço este tecto, branco, sem textura." Mas que sensação horrível, que gosto na boca, que dor no corpo. "Mas onde é que eu estou?", pensou olhando em todas as direcções.
Estava deitado no que aparentava ser uma cama de hospital, o mínimo movimento provocava dores agudas nas costelas do lado esquerdo. Tinha o torso envolto em ligaduras manchadas de sangue, os lençóis da cama eram brancos, soro no braço esquerdo, um bip ocasional quebrava o silêncio.
Era de noite, a porta do quarto estava fechada. Os cortinados brancos da janela ondulavam ao sabor do vento que entrava no quarto. Uma cadeira de cada lado da cama. Na mesa de cabeceira um copo virado ao contrário em cima de um guardanapo que por sua vez estava em cima de um pires. Uma pequena jarra acolhia um ramo de flores estranhas, dentes de leão. Encostado à jarra, um cartão : "As melhoras, Anna."
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