"Incêndio?", disse com cara incrédula. "Não me recordo de nenhum incêndio, não tenho queimaduras, nada." "Senhor Daystar", interrompeu Meyer, "Entenda que ao fim de tantos dias não me resta mais nada senão a confrontação directa, nenhum dos outros tratamentos funcionou. O senhor não apresenta melhoras, tudo o que diz, esses episódios que refere, são memórias incompletas feitas de pequenos fragmentos. Fragmentos de razão que não conseguem fazer um momento completo. Tudo o que me contou, na minha opinião, não passa de uma mistura de realidade e sonho, uma resposta que o seu cérebro dá para compensar a perda de algo. Um trauma. Querer fugir da realidade pode ser uma escolha consciente, mas no seu caso parece-me algo involuntário". O mais absoluto silêncio dominava agora o quarto do hospital. As palavras de Meyer não faziam sentido, mas havia algo de verdadeiro. "Compreendo que o que lhe contei pode causar confusão mas tinha que o fazer, ainda assim não há qualquer resposta da sua parte. Como se chama? Qual a sua idade? Qual o nome do banco onde trabalha? O nome do seu chefe? A cidade onde vive? Tudo o que me contou está envolto num manto de nevoeiro, não há nada de concreto. Nunca me deu nomes, topónimos, nada. No que toca à sua mulher o senhor sabe, mas nos assuntos que lhe dizem respeito directo o senhor Daystar não tem qualquer referência concreta."
"Senhor Daystar? Eu...o meu nome." a conversa de Meyer começava a fazer sentido, por muito que pensasse, o esforço era inútil. As memórias não estavam completas. "Entenda que a minha abordagem não é a mais correcta, mas pela saúde da sua mulher, o senhor tem que recuperar a memória. O seu filho, ele tinha três anos apenas, lembra-se de algo?", disse Meyer debruçando-se sobre a cama. "Não me lembro de nenhum filho, de nenhuma mulher, de nenhum incêndio. Não me lembro de nada! Não quero falar mais sobre isto, saia do meu quarto!" A porta do quarto abriu-se num estrondo, os vidros do quarto rebentaram em estilhaços. Sem qualquer hipótese para reagir Meyer viu-se projectado contra a mesa de cabeceira e perdeu os sentidos. Podia ver-se no corredor em frente à porta as enfermeiras a correr, uma grande confusão de pessoas em fuga. Doentes no chão, o elevador cheio de gente, gritos de socorro. "Mas que raio se está a passar?", disse enquanto se levantou da cama com a intenção de sair do quarto. Conseguiu chegar à porta mas ao dar um passo para dentro do corredor foi agarrado pelo pescoço.
Agora suspenso no ar, não havia escapatória, estava cara a cara com a mulher de cabelos negros. Lentamente os cabelos começaram a mover-se e agora era possível ver uma cara. As pessoas no corredor continuavam a correr, poucas eram as que se apercebiam do que se estava a passar. "Olá amor", disse a mulher. "Anna...tu..." - "Silêncio, como ousas, tu que destruíste tudo!". No corredor ouviu-se um estrondo, como uma explosão, uma onda de fogo incinerava tudo e todos numa questão de segundos. Rapidamente o fogo passou a neve. A temperatura desceu drasticamente, a neve começou a escurecer enquanto se instalava nos corpos, nos restos, nos pedaços de pessoas, nas cinzas. A mulher estava agora a chorar, lágrimas escuras corriam-lhe pela face. "Como podes dizer que não te recordas? De mim, do nosso filho, ele tinha só três anos! E tu, tu! Destruíste tudo, atiraste-me para uma cama de hospital, mataste o nosso filho, destruíste a nossa casa! E dás-te ao luxo de não te recordar?" - "Impossível, eu não me lembro de nada...", pensava.
A expressão de Anna, algo que não é deste mundo. Como podia um corpo tão frágil levantar um homem pelo pescoço. E o fogo? E a neve? "Vou levar tudo comigo, quero lá saber, e tu também. Se pensas que sais disto impune estás muito enganado. Fazes ideia do sofrimento? Do que eu tive que ver, a culpa é tua e há muito que passei o limite. Mas ouvir-te a dizer que não sabes, não te lembras, nem o nome do teu filho sabes!!!" - "Mas eu não me..." - "Cala-te! Eu ainda o tentei proteger, ainda nos defendi, de onde achas que vem essa ferida que tens nas costelas?" Com a mão firme Anna aproximou-o da sua cara, levantou outra mão e agarrou-o mais uma vez pelo pescoço. "Tu mataste-o! O nosso filho, destruíste a nossa casa, tu vais pagar, vão todos pagar!" Impotente, preso pelo pescoço, em esforço para se agarrar aos pulsos da mulher podia sentir a ferida das costelas a abrir-se. A temperatura do quarto começou a aumentar, uma erupção de chamas invadia o quarto furiosamente. Anna abriu a boca e começou a gritar enquanto as suas mãos esmagavam a traqueia da sua presa, a cada segundo que passava as chamas ficavam mais fortes, mais violentas, destruindo tudo no seu caminho num furação incandescente. A mãos apertavam mais e mais como se estivessem a esmagar uma lata de refrigerante. O calor era insuportável ao ponto da carne se separar do osso. Afogavam-se os dois em chamas, o grito de Anna podia ouvir-se fora do hospital. Todo o edifício ameaçava colapsar, pequenas explosões aqui e ali abalavam os prédios vizinhos que faziam chover vidros nas ruas.
Consumidos pelas chamas, consumidos por Anna. Consumidos pelo sentimento que ultrapassou o limite humano. Alguns minutos depois o prédio colapsava, as chamas consumiam os seus escombros num fogo que não tinha fim à vista. Várias equipas de bombeiros lutavam para o controlar e só ao fim de algumas horas a situação era dada como resolvida. O fogo, no entanto, não foi apagado por eles. A meio da noite , quando a lua já ia alta, começou a nevar. As chamas foram abafadas por um manto branco que mais tarde escureceu, conspurcado pelos destroços, pelas cinzas. Algumas pessoas afirmavam ouvir uma criança a cantar enquanto a neve caia, não houve sobreviventes, mas não morreu ninguém que estivesse no exterior do hospital. Causas desconhecidas, duas palavras que figuravam no relatório final do incidente. A neve caiu durante alguns dias e nunca mais voltou a nevar naquele local.
Não podemos arrancar uma página do livro da nossa vida, mas podemos atirar o livro todo para o fogo. - George Sand
Não podemos arrancar uma página do livro da nossa vida, mas podemos atirar o livro todo para o fogo. - George Sand
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