Acorda em sobressalto, o coração quer saltar-lhe do peito, o sonho era tão real que ainda sente o frio do ar gélido, o sangue quente salpicado após ter decapitado um homem com um só golpe. Ainda o rugir dos homens e o embate das espadas ecoam na sua cabeça. Estes são os sonhos que o assombram todas as noites. Talvez seja o cérebro a compensar a vida monótona que tem como bancário, talvez seja um vislumbre da sua vida passada. Hoje em dia é um homem de fraca estatura, franzino e bastante submisso. O homem que encarna todas as noites é forte e destemido, uma fera sedenta de sangue – Será que sou uma pessoa normal? – Questiona-se. Talvez as pessoas normais sonhem em ter a vida que tem agora, ou será que nem sonham?
Na noite seguinte as mesmas imagens e sensações invadem-lhe os sonhos, desta vez não quer acordar, quer saber mais, quem é ele e o que faz no meio desta carnificina? O rodopiar de um machado na sua direcção, a esquiva, o desferir do golpe que desmembra um homem alto e peludo que lhe quer tirar a vida. O homem cai inanimado e o guerreiro pisa-lhe a cara com o calcanhar…uma morte horrível. Subitamente ouve um grito que se aproxima por trás, quando se vira para o enfrentar vê uma espada que o trespassa…acorda de novo num grito, as mãos cravadas no peito…era só um sonho.
Na noite seguinte tem medo de adormecer, mas está cansado da vida que um cubículo lhe oferece, adormece. Desta vez está sozinho numa floresta, ao longe, por entre corpos esventrados vê uma criança tão branca que lhe parece translúcida. Corre em direcção à criança que foge em forma de brincadeira, mas na verdade encaminha-o para uma gruta escura. Não há indícios de ser um local perigoso. A criança fica à entrada e aponta para o interior da gruta. De todas as noites que encarna este homem é a primeira vez que não há mortes nem sangue, apenas uma criança que parece indicar-lhe um caminho, uma entrada…
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