"Escute, mesmo que conheça a Senhora Daystar, não pode estar aqui. Nem sequer são horas de visita, vamos, eu ajudo-o até ao seu quarto", disse a enfermeira enquanto dava um passo em frente no sentido da porta.
"Tem razão, eu preciso de descansar, mas diga-me por favor porque é que a Anna está internada". "A Senhora Daystar deu entrada no hospital inconsciente, foi encontrada em casa após os vizinhos terem visto fumo a sair da janela da cozinha". Começaram a andar pelo corredor em pequenos passos, as dores nas costelas eram constantes. "Mas então ela desmaiou com o fumo, foi isso?". Não sei os detalhes, mas um dos bombeiros que acompanhou a Senhora Daystar na ambulância disse algo sobre serem duas vítimas. Bem, cá estamos, o seu quarto, faça o favor de se deitar. Se precisar de alguma coisa carregue ali no interruptor do costume."
O quarto parecia estar a ser usado há alguns dias, a cama estava desfeita, algumas revistas em cima da cadeira do lado esquerdo. Na mesa de cabeceira estava uma garrafa de água meio cheia, um copo com algumas gotas e um guardanapo amachucado.
"Mas há quantos dias é que estou aqui?", deixou escapar enquanto caminhava para a cama. "O senhor está aqui há seis dias, não se recorda?", disse a enfermeira enquanto corria os cortinados. "Seis dias!? Mas por que razão estou eu aqui?". "O senhor tenha calma, se não se recorda não há motivo nenhum para eu não lhe contar" retorquiu a enfermeira enquanto folheava a ficha de internamento. "Que o senhor deu entrada há seis dias já nós sabemos, o motivo de internamento e a óbvia razão para se movimentar tão devagar são as três perfurações que tem na zona das costelas, felizmente nenhuma com profundidade suficiente para causar danos permanentes. Estava também desidratado quando aqui chegou, não vejo mais nenhuma informação relevante. Deite-se, e se precisar de alguma coisa, já sabe." disse a enfermeira enquanto saia do quarto e fechava a porta.
"Seis dias, seis dias, seis dias, seis dias...", como podia estar ali há seis dias? E o trabalho? O seu trabalho no banco? Não é que não tivesse algum dinheiro em poupanças mas seis dias de faltas injustificadas poderiam levar a despedimento. "O meu patrão deve estar furioso..." Mais uma vez via-se assolado por uma multidão de pensamentos, quem o tinha esfaqueado? onde tinha sido encontrado? o que tinha acontecido a Anna? porque não se recordava dos últimos seis dias?
Passou o dia enclausurado no quarto, meio a ver televisão, meio a ponderar a situação em que se encontrava. Nem um floco de neve à vista, nenhuma sombra estranha, nenhuma criança, apenas uma dor bem real nas suas costelas. O serão foi interrompido por alguém a bater à porta, bateu três vezes e entrou. "Boa noite, como estamos hoje?" disse uma figura que entrou no quarto. Um médico acabara de entrar, alto e muito magro, com a barba por fazer e cabelo grisalho. Os olhos pequenos e esbatidos fitavam o seu paciente que o olhava também em expressão de desconhecimento total. "Boa noite...". "Então, não me diga que não se lembra de mim" ,disse com um pequeno sorriso. "Enfim, também depois do choque que sofreu, suponho que seja normal estar um pouco desnorteado. Sou o Doutor Meyer, médico psiquiatra, gostava de continuar a conversa que tivemos ontem à noite.", disse puxando a cadeira do lado direito da cama.
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